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Cai aprendizado de matemática no último ano do ensino médio, aponta levantamento

Índice é ainda pior considerando os níveis sociais e de raça. Em língua portuguesa, a evolução ainda é pequena. Estudo do Todos pela Educação foi feito com base nos dados do Saeb de 2007 a 2017. Por Elida Oliveira | G1 Dados divulgados pelo movimento Todos pela Educação nesta quinta-feira (21) apontam que o aprendizado de matemática dos estudantes do 3º ano do ensino médio caiu 0,7 ponto percentual (pp) no Brasil entre 2007 e 2017. Isso quer dizer que os concluintes desta etapa de ensino estão saindo da escola sabendo menos do que os estudantes formados há uma década. Nas escolas públicas, a queda foi ainda maior: de 4 pp. O índice piora quando a comparação considera raça e o nível socioeconômico do estudante. Matemática apresenta baixos índices de aprendizagem entre estudantes do 3º ano do ensino médio, ou seja, alunos estão se formando sem aprender todo o conteúdo adequado para a sua idade. — Foto: Divulgação A análise do Todos foi feita com base nos dados do Sistema de Avalia

Melhores professores deveriam atuar nas escolas com os alunos mais pobres, mas Brasil não aplica essa política, diz OCDE

Dados divulgados nesta segunda-feira (11) mostram que países ibero-americanos não compensam a desvantagem socioeconômica entre as escolas colocando nelas os professores mais qualificados e experientes.


Por G1, São Paulo

O Brasil, assim como diversos países ibero-americanos, não pratica, como política pública, a seleção de seus melhores professores para atuarem nas escolas com os estudantes mais pobres. A medida pode ajudar a melhorar a qualidade da educação, segundo dois levantamentos divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na manhã desta segunda-feira (11).

Pisa é uma prova da OCDE aplicada a alunos de 15 anos em 70 países (Foto: Divulgação/Colégio São Luís)
Pisa é uma prova da OCDE aplicada a alunos de 15 anos em 70 países (Foto: Divulgação/Colégio São Luís)

Os dados do estudo "Professores ibero-americanos: insights do Pisa e da Talis" fazem, pela primeira vez, segundo a OCDE, um cruzamento de informações de vários questionários aplicados nas escolas dos países participantes das duas pesquisas, com diretores, professores e alunos. Parte das respostas são subjetivas e refletem as percepções de cada grupo de participantes. Mas, segundo a OCDE, o cruzamento também reúne "medidas objetivas" retiradas do Pisa sobre a formação inicial e a experiência de professores.

"Poucos países compensam a desvantagem dos estudantes alocando seus professores mais qualificados e experientes nas escolas com maior necessidade, seja por mecanismos centralizados ou descentralizados", diz o estudo.

O estudo, que usou indicadores de 19 países, incluindo dez ibero-americanos, mostra que:
  • Os professores de escolas públicas brasileiras, apesar de serem concursados, podem optar pelo local de trabalho, sendo que os mais experientes têm prioridade, mas não recebem muitos incentivos para optarem pelas escolas com mais desafios
  • Nas escolas com alunos mais pobres no Brasil, em média 20% dos professores de ciência têm contratos temporários de até um ano; essa proporção cai para 4% nas escolas com alunos mais ricos
  • No Brasil, professores de áreas não científicas nas escolas com alunos mais pobres precisam ensinar temas para os quais não receberam formação com maior frequência que nas escolas com os alunos mais ricos
  • Cada ano a mais de carreira do professor ajuda a melhorar o desempenho dos alunos
  • Países como Japão e Coreia do Sul mantêm sistemas em que os professores são obrigados a mudar de escola depois de um determinado período, para "equilibrar" o acesso das escolas a professores em diversas fase na carreira
  • No Chile, Colômbia, México, Peru, Portugal, Espanha e Uruguai, escolas com mais desvantagens têm classes com menos alunos do que as escolas com mais vantagens; no Brasil, esse número não difere tanto

A questão socioeconômica

A "desvantagem" citada no estudo representa a desigualdade no nível socioeconômico entre as escolas, já que escolas que ficam em regiões mais pobres tendem a ter estudantes vindos de famílias também mais pobres.

De acordo com a OCDE, muitos estudos já têm se debruçado na correlação entre o nível socioeconômico dos estudantes e o desempenho educacional das escolas. Os dados mostram que o perfil dos alunos faz diferença no seu aprendizado. Mas o impacto não é só da renda. Outros fatores incluem o grau de instrução dos pais (principalmente da mãe), por exemplo. As pesquisas indicam que isso influencia, por exemplo, em um maior engajamento dos filhos em atividades culturais e hábitos de leitura.

A seleção dos melhores professores

Em comparação, continua o estudo, "pouca atenção tem sido dada à variação entre o número e a qualidade dos professores em escolas com diferentes perfis de alunos, e à influência que essa variação tem na equidade do desempenho dos estudantes".

De acordo com o documento, "professores em escolas em desvantagem nos países ibero-americanos não estão mais preparados ou têm mais experiência que os professores trabalhando em escolas menos desafiadoras".

Além disso, tanto os diretores quanto os professores dessas escolas dizem perceber que "professores pouco qualificados podem estar atrapalhando o aprendizado dos estudantes".

A formação dos professores

A OCDE diz que o Brasil, assim como a Costa Rica e a República Dominicana, apresenta pouca diferença na formação dos professores das escolas com desvantagens do que os demais colégios: as turmas têm em média o mesmo número de alunos, e os professores têm qualificações parecidas.

Em outros países ibero-americanos, como Chile, Colômbia, México, Peru e Portugal, a qualificação dos professores também não varia, mas pelo menos as salas de aulas das escolas com alunos mais pobres tendem a ter menos alunos, o que melhor a relação de alunos por professor.

Além disso, no Brasil, professores das escolas mais pobres que não dão aulas de ciências afirmaram que já tiveram que ensinar em sala de aula temas que não estavam incluídos na sua formação, treinamento ou programas de qualificado, com mais frequência do que os professores contratados pelas escolas com mais alunos ricos.

A experiência dos professores

De acordo com os resultados de cada país no Pisa, e analisando os dados sobre a formação dos professores, o estudo diz que, a cada ano a mais de experiência de um professor, melhor fica o desempenho dos estudantes. Embora não haja detalhes quantitativos sobre essa relação, a OCDE diz que essa melhora no desempenho tende a ser maior nos primeiros cinco anos de carreira dos professores.

A maioria dos estudos descobre que a experiência do professor e o desempenho do estudante estão relacionadas de maneira positiva", diz a OCDE. "Colocar os professores mais experientes nas escolas com mais desvantagens pode, portanto, ser uma maneira de compensar pelas desvantagens dos alunos."

Escolas pouco atrativas

Outro empecilho para que os melhores professores trabalhem nas escolas com estudantes mais pobres é que uma série de fatores as tornam menos atrativas, além do fato de que as escolas com os alunos mais ricos e as notas mais altas ganharem um "status" mais alto.

O estudo cita, por exemplo, o fato de essas escolas ficarem em bairros mais afastados do centro das cidades ou oferecem equipamentos piores, o que pode fazer com que professores desistam da ideia de trabalhar lá mesmo que o salário seja mais alto.

Esses atrativos fazem com que as escolas com mais vantagens retenham seus professores durante mais tempo, o que, em consequência, também tem efeito positivo no desempenho dos estudantes, já que os professores acabam conhecendo mais os detalhes e problemas de cada aluno, além de desenvolver relações mais próximas com as famílias.

Em comparação, nas escolas com mais desvantagens, os dados mostram que há mais casos tanto de falta de professores quanto de professores que faltam às aulas, o que impacta negativamente no aprendizado.

Valorização dos professores

A organização divulgou, também nesta segunda, o estudo "Políticas públicas sobre professores eficientes: insights do Pisa", que mostra que, no Brasil, a porcentagem de professores de educação básica que se consideram valorizados na sociedade é menos que a metade da média dos países da OCDE.

Com base em dados da edição 2013 da Talis, o estudo mostra que, no Brasil, só 12,6% dos professores acreditam serem valorizados pela sociedade. A média de 25 países membros da OCDE no mesmo ano foi de 28%.

Exemplos de outros países

De acordo com a OCDE, exemplos de países que já aplicam essa política de mover os professores de escola podem ser encontrados, mas longe da América Latina e da Península Ibérica:
  • Japão: No Japão, os professores devem mudar de escola "periodicamente" no decorrer de suas carreiras, para garantir que todas as escolas tenham acesso a professores eficazes e a um equilíbrio entre professores novatos e os docentes com experiência.
  • Coreia do Sul: O país asiático criou um esquema de rotação obrigatória dos professores a cada cinco anos, com incentivos para que os professores escolham ir para as escolas mais necessitadas, como aumento salarial, salas com menos alunos, maior chance de receber uma promoção e a liberdade de escolher a próxima escolha na rotação seguinte.

Entenda o que são o Pisa e a Talis
  • Pisa: O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) é uma prova aplicada a cada três anos com os estudantes de 15 anos que oferece um perfil básico de conhecimentos e habilidades dos estudantes, reúne informações sobre variáveis demográficas e sociais de cada país e oferece indicadores de monitoramento dos sistemas de ensino ao longo dos anos. A última edição aconteceu em 2015 em 70 países e economias, entre 35 membros da OCDE e 35 parceiros, incluindo o Brasil.
  • Talis: Chamada de Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês), ela coleta dados sobre o ambiente de aprendizagem e as condições de trabalho dos professores nas escolas de todo o mundo. O objetivo é fornecer informações que possam ser comparadas com outros países para que se defina políticas para o desenvolvimento da educação. Os dados são divulgados a cada cinco anos, e os mais recentes são de 2013.

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